Historicamente Falando 

por Ana Rodrigues, Redação EgNews.


O retorno histórico do grupo sul-coreano BTS com o álbum ARIRANG reacende debates urgentes: 

                                 

                            "Por que o entusiasmo  das mulheres pela arte é taxado 

                                      de "histeria", enquanto o fanatismo esportivo 

                                                   masculino é celebrado como

                                                         cultura nacional? "


Quando os sete membros do BTS concluíram o serviço militar obrigatório na Coreia do Sul, a indústria global da música prendeu a respiração. O aguardado retorno oficial com o aclamado álbum "ARIRANG" provou que o hiato compulsório não foi capaz de arrefecer o fenômeno mundial. Pelo contrário: ao alcançar marcas astronômicas nas paradas Billboard, o septeto retornou aos palcos com uma sonoridade refinada e uma urgência lírica ainda maior. Mas, para além dos recordes avassaladores e das arenas lotadas, qual seria o verdadeiro segredo por trás do relacionamento de tanto amor entre fã e artista? 


O verdadeiro triunfo do grupo reside na manutenção de um porto seguro emocional construído majoritariamente para - e por - mulheres. Em um ecossistema pop frequentemente criticado pela superficialidade, as composições do BTS atuam há anos como um manifesto de emancipação emocional e validação da saúde mental feminina. No entanto o gigantismo do fandom esbarra em um preconceito estrutural antigo: A desvalorização sistemática das paixões femininas.


A Paixão Válida x a "Histeria"

O fenômeno que envolve o BTS e seu público frequentemente esbarra em barreiras preconceituosas na mídia e no senso comum. Historicamente, produções culturais consumidas massivamente por mulheres - em especial adolescentes e jovens adultas - são rotuladas de "fúteis", "histéricas" ou "alienadas". Você Army, já chegou a se questionar porque na infância o "ideal" seria brincar de "casinha", "comidinha" ou de ser "mãe de uma boneca"? Trata-se de uma gritante disparidade social quando comparamos esse cenário ao universo dos esportes tradicionais dominados por homens, como o futebol. 

Ninguém questiona a sanidade mental ou a maturidade de um homem que chora, grita, compra camisas caras, briga na rua ou muda seu humor semanal com base nos resultados do seu time de futebol. Pelo contrário, esse comportamento é socialmente incentivado, visto como "paixão legítima" e parte intrínseca da identidade cultural. Mas quando uma mulher replica o mesmíssimo nível de dedicação, investimento financeiro e paixão por um grupo musical ou por uma expressão artística, o julgamento é implacável: ela é infantilizada, ridicularizada e vista como alguém que carece de senso crítico. Essa desvalorização silencia a agência das mulheres e dita o que elas têm ou não direito de consumir com orgulho. 


O Escudo contra a Sociedade Patriarcal

A conexão profunda do grupo com o público feminino não se baseia em clichês românticos, mas no respeito e no combate aberto a essas opressões cotidianas. O que a maioria não consegue entender é que essa relação de fã e artista entre o grupo e os fãs, foi construída não só através das músicas e sim com a dinâmica que o BTS criou em deixar os fãs os conhecerem, não como artistas mas como humanos. Fãs relatam se sentir "em casa" ao assistir uma live, ou até mesmo assistindo aos seus programas como "Run Bts". 

"é como uma pausa na minha tristeza, quando os dias pesam é para eles que eu corro. Os programas e lives deles me fazem rir e distraí minha cabeça. Muita gente infelizmente não tem amor em casa, ou se sente muito sozinho no mundo, para mim ali enquanto assisto e os acompanho me sinto amada, cuidada e abraçada por sete meninos que eu não vi pessoalmente. Porém me acolheram mais dos que os que eu via todos os dias e viviam ao meu redor." - relato de uma fã retirado de redes sociais.    

Na era clássica, o hino "21st Century Girls" já ditava o tom de um manifesto de autoestima, com versos diretos como "Diga a elas que você é forte / Diga a elas que você é o suficiente", funcionando como um escudo contra os julgamentos estéticos e sociais.

Essa postura ganhou novos contornos de maturidade em ARIRANG. Na faixa "Normal", o grupo expõe o esgotamento de tentar se encaixar em padrões sufocantes impostos por uma sociedade patriarcal. Em suas transmissões e discursos, os membros frequentemente reforçam que o processo de amadurecimento envolve aceitar as próprias falhas e vulnerabilidades. É uma mensagem que ecoa profundamente em uma geração de mulheres jovens que enfrentam cobranças severas sobre seus corpos, carreiras e comportamentos.

A Devoção Absoluta de "Please" como Resposta à Distância

Uma das maiores joias da nova era pós-exército é a décima terceira faixa do álbum, intitulada "Please". Produzida pelo compositor americano Tyler Spry, a música mistura lo-fi synth com elementos profundos de baixo e guitarra. Liricamente, "Please" serve como a resposta artística perfeita aos anos de separação forçada pelo alistamento militar e às tentativas externas de desestabilizar a relação do grupo com seus fãs.

Nos versos divididos entre coreano e inglês: "Baby, por favor / Quando o mundo tenta nos separar... Fica comigo no meu pior dia / Até o inferno, eu encaro". A canção retrata uma devoção mútua inabalável, onde os integrantes se colocam de joelhos para acolher e proteger o ouvinte em momentos de dor. Ao cantar sobre resistir a um "caminho cheio de espinhos", o BTS valida o sentimento de suas fãs e transforma a vulnerabilidade em uma fortaleza impenetrável contra as críticas do mundo exterior.


A Resposta na União: A Inteligência Coletiva do ARMY

Longe do estereótipo de passividade que o machismo estrutural tenta projetar, as mulheres que integram o ARMY transformaram a devoção aos artistas em redes de apoio psicológico mútuo, campanhas massivas de filantropia e um escudo digital altamente articulado contra discursos de ódio, xenofobia e machismo.

Seja organizando arrecadações de fundos para causas humanitárias ou combatendo preconceitos na imprensa tradicional, esse público prova diariamente que seu hobby move estruturas reais no mundo. O pacto que une o grupo e suas fiéis seguidoras resistiu ao tempo, à distância do exército e aos preconceitos de gênero. O BTS retornou aos palcos de sua turnê atual lembrando ao mundo que acolher as próprias fragilidades, apoiar outras mulheres e lutar pelo direito de amar a própria arte continua sendo, fundamentalmente, o maior e mais belo ato de rebeldia possível. Que cada ato de rebeldia que liberte uma mulher de suas amarras possa libertar outras, essa ilusão de que você é menos mulher, menos mãe, menos avó, menos profissional por simplesmente ter um gosto diferente do habitual imposto por terceiros, é a mais pura besteira. Como o próprio BTS diz: "se te faz bem, faça! vão te julgar do mesmo jeito, apenas seja feliz".