O que deveria ser apenas mais uma manhã de trabalho no Hospital da Região Leste, no Paranoá, terminou em tensão, medo e indignação nesta segunda-feira (17). Segundo relatos compartilhados por servidores em grupos internos, 11 pessoas ficaram presas dentro de um elevador por aproximadamente 45 minutos.
A primeira mensagem teria sido enviada às 7h14: “Presa no elevador”. Pouco depois, começaram a surgir informações desencontradas sobre o número de pessoas retidas. Enquanto uma informação repassada à equipe indicava três pessoas, servidores que estavam em contato com quem permanecia dentro do equipamento afirmavam que eram 11.
Às 7h32, a informação era de que a Brigada já havia sido acionada. Minutos depois, o Corpo de Bombeiros também estaria atuando na ocorrência. Por volta das 7h55, veio o alívio: as pessoas foram retiradas do elevador.
Mas o episódio está longe de ser tratado como um simples incidente.
Entre os ocupantes estaria uma servidora com problema cardíaco. Em uma das mensagens, um servidor demonstrou preocupação com o impacto que o confinamento, o estresse e o medo poderiam provocar em pessoas com condições de saúde preexistentes. Não há informação, até o momento, de que alguém tenha sofrido infarto durante o episódio, mas o temor relatado pelos servidores evidencia a dimensão da insegurança.
E existe um detalhe que torna tudo ainda mais grave: o problema dos elevadores não é novo.
Dos quatro elevadores, apenas dois ainda funcionam — e com problemas
O Hospital da Região Leste possui quatro elevadores. Segundo relatos de servidores e representantes locais, dois deles estão definitivamente fora de funcionamento há quase um ano.
Os outros dois, que deveriam dar conta de toda a movimentação de pacientes, servidores, acompanhantes, equipamentos e materiais, apresentam problemas recorrentes.
Ou seja: o que aconteceu nesta segunda-feira não pode ser tratado como um episódio isolado.
Quando um hospital opera com metade de seus elevadores indisponível há meses e os equipamentos restantes apresentam falhas frequentes, cada pane deixa de ser uma eventualidade e passa a representar um risco previsível.
E foi exatamente isso que aconteceu.
Onze pessoas ficaram confinadas em um espaço fechado durante aproximadamente 45 minutos. Entre elas, segundo os relatos, havia uma pessoa com problema cardíaco, além de profissionais e outras pessoas que estavam no hospital para trabalhar ou receber atendimento.
Era uma tragédia anunciada?
Talvez essa seja uma pergunta dura, mas necessária.
Quatro meses de cobrança — e o elevador volta a parar
Em abril, o Conselho de Saúde do Paranoá levou pessoalmente à então governadora em exercício Celina Leão uma lista de reivindicações consideradas urgentes para a saúde da Região Leste.
Entre elas estava justamente a substituição imediata dos elevadores do Hospital da Região Leste. O documento também cobrava melhorias em leitos, atendimento pediátrico, pronto-socorro, contratação de profissionais e ampliação da estrutura obstétrica.
Na ocasião, as demandas foram apresentadas diretamente à governadora, que teria recebido os pedidos e se comprometido a buscar soluções junto à Secretaria de Saúde.
Passados cerca de quatro meses, porém, o problema dos elevadores continua suficientemente presente para que, nesta segunda-feira, trabalhadores e usuários se vissem novamente diante de uma situação de risco e apreensão.
E o mais simbólico é que a própria Secretaria de Saúde já havia tratado da contratação de serviços de manutenção dos elevadores da unidade.
A pergunta que fica é inevitável:
Se o problema já era conhecido, se já havia cobrança formal e se a situação se arrasta há meses, por que a solução ainda não chegou?
O silêncio também tem limite
O Conselho de Saúde do Paranoá tem adotado, nos últimos meses, uma postura de cautela em suas manifestações públicas.
A entidade tem evitado transformar as cobranças em disputa político-eleitoral, especialmente diante do atual cenário eleitoral, para não ser acusada de favorecer ou prejudicar candidatos.
É uma preocupação legítima.
Mas existe um ponto em que a prudência não pode se transformar em silêncio.
Conselho de Saúde também tem responsabilidade pública.
Quando problemas estruturais chegam ao limite — quando pessoas ficam presas em elevadores, quando servidores ficam sem alimentação e quando pacientes passam a ser afetados pela desorganização dos serviços — não se manifestar também pode significar deixar de cumprir uma parte importante dessa responsabilidade.
Não se trata de escolher candidato.
Não se trata de fazer campanha.
Não se trata de atacar adversários.
Trata-se de cobrar quem tem obrigação de resolver.
E, nesse sentido, aqueles que hoje ocupam posições de responsabilidade política ou administrativa e que eventualmente venham a se apresentar como vítimas de críticas não podem alegar desconhecimento.
Os problemas do Hospital do Paranoá já foram denunciados, formalizados e levados às autoridades há muito tempo.
Não é uma surpresa que os elevadores estejam em situação precária.
Não é uma surpresa que servidores estejam enfrentando dificuldades.
Não é uma surpresa que a alimentação esteja sendo afetada.
Os alertas foram feitos.
Agora, nem a alimentação dos servidores está garantida
Como se o episódio do elevador não fosse suficiente, o hospital atravessa também uma crise envolvendo o fornecimento de refeições.
Segundo o Conselho de Saúde do Paranoá, o contrato responsável pela alimentação no Hospital da Região Leste terminou em 12 de agosto, sem que houvesse uma empresa substituta pronta para assumir imediatamente o serviço.
Desde então, as refeições dos pacientes passaram a ser fornecidas provisoriamente pela cozinha do Hospital de Base, enquanto os servidores ficaram sem o fornecimento regular de suas próprias refeições.
O problema não é meramente administrativo.
Em um hospital, alimentação faz parte do cuidado. Há pacientes que dependem de dietas específicas, crianças pequenas, bebês, pessoas diabéticas e pacientes submetidos a tratamentos que exigem alimentação em horários adequados.
Enquanto isso, servidores que já trabalham sob pressão precisam lidar com uma preocupação elementar:
Como se alimentar durante o expediente?
E, mais uma vez, a população fica no meio do problema.
Um hospital que parece funcionar no limite
O que vem acontecendo no Hospital do Paranoá começa a formar um retrato preocupante.
De um lado, dois dos quatro elevadores estão parados há quase um ano, enquanto os outros dois apresentam problemas recorrentes.
De outro, um contrato essencial de alimentação termina sem que uma solução definitiva esteja pronta para substituí-lo.
No meio disso estão pacientes, acompanhantes e servidores — justamente as pessoas que não podem simplesmente abandonar o serviço quando a estrutura falha.
O Conselho de Saúde já havia levado as reivindicações às autoridades.
A população já havia cobrado.
Os servidores seguem relatando dificuldades.
E, nesta segunda-feira, 11 pessoas ficaram presas em um elevador durante cerca de 45 minutos.
Quantos avisos ainda serão necessários?
Não foi falta de aviso
O episódio desta segunda-feira deixa uma questão que precisa ser respondida pelo poder público:
Quem será responsabilizado se, na próxima vez, o desfecho não for tão tranquilo?
Hoje foram 11 pessoas retiradas com vida e sem registro, até o momento, de uma consequência médica grave.
Mas poderia ter sido diferente.
Uma crise de ansiedade poderia ter evoluído para uma emergência médica. Uma pessoa com doença cardíaca poderia ter passado mal. Um paciente em estado grave poderia estar sendo transportado. Uma criança poderia estar entre os ocupantes. Um profissional poderia precisar chegar rapidamente a outro setor.
Em um hospital, minutos importam.
Equipamentos funcionando não são luxo.
Alimentação adequada não é privilégio.
Manutenção não é detalhe.
São condições mínimas para que um hospital público funcione.
E quando essas condições deixam de existir por meses, não há mais espaço para tratar os problemas como casos pontuais.
O Hospital do Paranoá não precisa de discursos.
Precisa de elevadores funcionando.
Precisa de alimentação garantida.
Precisa de estrutura.
Precisa de planejamento.
Precisa de respostas.
E, sobretudo, precisa que as autoridades parem de agir somente depois que o problema vira notícia.
Porque os responsáveis já foram avisados há muito tempo.
Aos candidatos e agentes públicos que pretendem discutir os problemas da saúde do Distrito Federal, fica também um alerta: não será razoável apresentar-se como vítima das cobranças quando as deficiências já foram levadas ao conhecimento das autoridades.
Não faltou aviso. Faltou solução.
E, quando pessoas começam a ficar presas em elevadores dentro de um hospital, o limite já foi ultrapassado.
Não basta agradecer a Deus porque todos conseguiram sair.
É preciso perguntar por que eles foram colocados nessa situação em primeiro lugar — e por que, depois de tantos alertas, nada foi resolvido.


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