O dia 12 de agosto deveria marcar apenas o encerramento de mais um contrato administrativo. No Hospital da Região Leste, o Hospital do Paranoá, porém, a data acabou revelando um problema que ultrapassa a burocracia de uma contratação: como garantir a alimentação de pacientes e trabalhadores quando o contrato termina e não existe, aparentemente, uma empresa preparada para assumir o serviço imediatamente?
O contrato da Secretaria de Estado de Saúde do Distrito Federal (SES-DF) com a empresa responsável pelo fornecimento de alimentação chegou ao fim no último dia 12. Para surpresa de parte da comunidade hospitalar, não havia uma empresa substituta pronta para assegurar a continuidade de um serviço essencial dentro de uma unidade de saúde.
Desde então, o clima no hospital passou a ser de tensão e apreensão.
A alimentação, dentro de um hospital, não pode ser tratada como um serviço secundário. Há pacientes que dependem de dietas enterais, bebês prematuros e crianças de poucos meses que precisam receber leite em horários rigorosamente estabelecidos, além de pacientes diabéticos que necessitam de alimentação em horários adequados e acesso rápido a alimentos em situações de hipoglicemia.
Há ainda pacientes submetidos a tratamentos com antibióticos potentes ou outros medicamentos que precisam ser administrados associados à alimentação. E há uma necessidade básica que deveria ser garantida sem qualquer discussão: todo paciente internado precisa receber alimentação adequada, segura e no horário correto.
A mesma preocupação alcança os servidores que permanecem diariamente dentro da unidade.
Uma solução provisória que também traz preocupação
Diante do fim do contrato, as refeições dos pacientes passaram a ser fornecidas, de maneira alternativa e provisória, pela cozinha do Hospital de Base.
A medida evita, neste momento, uma interrupção completa do fornecimento aos pacientes, mas já provoca transtornos devido aos atrasos registrados na chegada das refeições.
Para alguns pacientes e acompanhantes, a alternativa encontrada tem sido deixar temporariamente o hospital para conseguir se alimentar.
Enquanto isso, os servidores foram surpreendidos com o fim do fornecimento de suas próprias refeições, precisando arcar com custos e organizar uma logística que não estava previamente planejada.
O que deveria ser uma operação estruturada e previsível passou a depender de soluções emergenciais.
Risco e responsabilidade
A transferência de alimentos entre unidades hospitalares também levanta questionamentos sobre logística, conservação, temperatura e segurança alimentar, especialmente em um período de calor.
Quanto maior o tempo entre o preparo, transporte e distribuição, maior precisa ser o rigor no controle das condições de armazenamento e conservação dos alimentos.
Em um ambiente hospitalar, qualquer falha nessa cadeia pode ter consequências especialmente delicadas para pessoas que já se encontram fragilizadas pela própria condição de saúde.
Conselho de Saúde cobra providências
O Conselho de Saúde recebeu diversas denúncias e relatos nos corredores do Hospital da Região Leste.
Segundo o Conselho, diante da impossibilidade de acesso ao sistema SEI para uma manifestação oficial de seu presidente, não foi possível, até o momento, formalizar os questionamentos diretamente à direção da unidade da maneira pretendida.
Por isso, o Conselho decidiu tornar pública a situação e cobrar providências urgentes.
A entidade considera inadmissível que um hospital público chegue ao encerramento de um contrato essencial sem que esteja assegurada uma solução adequada para a continuidade do serviço.
A preocupação não se resume à existência ou não de refeições. Trata-se de planejamento, gestão e, sobretudo, respeito às necessidades de pacientes que não podem esperar que a administração pública encontre uma solução depois que o problema já chegou à porta do hospital.
Não consigo entender como a saúde está sendo tratada dessa forma
Em tom de desabafo, o presidente do Conselho de Saúde, Marco Antonio, afirma não conseguir compreender como uma questão tão básica e essencial para o funcionamento de um hospital pôde chegar a esse ponto.
Segundo ele, há cerca de quatro meses foram entregues à governadora uma série de reivindicações relacionadas à saúde da Região Leste, mas, até o momento, nenhuma delas teria sido atendida.
Agora, além das dificuldades enfrentadas pelo próprio Conselho, que estaria sem uma secretaria para auxiliar no desenvolvimento de suas atividades, surge uma nova crise envolvendo um serviço fundamental dentro do Hospital do Paranoá.
Para Marco Antonio, a situação simboliza um problema maior: a sensação de que a saúde pública vem sendo conduzida no limite, dependendo cada vez mais do esforço daqueles que estão na ponta. Em tom de desabafo, ele afirma: “Não consigo entender como a saúde está sendo tratada dessa forma.”
O esforço de quem está na ponta
Em meio ao cenário de incerteza, o Conselho de Saúde faz questão de reconhecer o trabalho dos profissionais da equipe de nutrição.
São servidores que, diante da ausência da estrutura anteriormente responsável pelo serviço, vêm tentando contornar a situação da melhor maneira possível, inclusive participando de atividades relacionadas à entrega dos alimentos — uma tarefa que anteriormente era realizada pela equipe da empresa terceirizada.
São profissionais que precisam adaptar sua rotina e assumir responsabilidades diferentes de sua atividade-fim para impedir que o problema administrativo se transforme em uma crise ainda maior para os pacientes.
É justamente esse esforço que, para o Conselho, merece ser destacado, pois, quando a estrutura falha, são os servidores que permanecem.
São eles que improvisam, que encontram caminhos, que carregam responsabilidades que não estavam previstas e que tentam garantir que o paciente não seja o maior prejudicado.
Até quando a saúde pública dependerá do esforço dos servidores?
A situação do Hospital do Paranoá deixa uma pergunta que não pode ser ignorada: por que um serviço essencial chega ao último dia de um contrato sem que uma solução de continuidade esteja assegurada?
A saúde pública não pode funcionar baseada em improvisos sucessivos.
Pacientes não podem esperar. Bebês não podem esperar. Pessoas diabéticas não podem esperar. Pessoas submetidas a tratamentos intensivos não podem esperar. E servidores que dedicam seus dias ao cuidado dessas pessoas também não deveriam ser surpreendidos pela falta de uma estrutura básica para sua alimentação.
O Conselho de Saúde espera que providências sejam tomadas com urgência para garantir a regularização do serviço e preservar a segurança e a dignidade de pacientes, acompanhantes e trabalhadores.
No fim das contas, o episódio não fala apenas sobre comida.
Fala sobre cuidado. Fala sobre planejamento. Fala sobre responsabilidade. E, principalmente, fala sobre o tipo de tratamento que a saúde pública e aqueles que dependem dela estão recebendo.
E, para quem vive diariamente os corredores do Hospital do Paranoá, fica o reconhecimento aos servidores que seguem fazendo o possível para manter a unidade funcionando.
Como resume o presidente do Conselho de Saúde, “não fosse o compromisso de quem está na ponta, talvez o hospital já tivesse parado há muito tempo”.


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